Filhos adotivos – São de sangue ou de coração?

O-D-E-I-O quando as pessoas me perguntam isso: É seu filho de sangue ou de coração?

Sério, se quer me matar, me faz essa pergunta. Tenho uma boa resposta pronta, que por educação não vou compartilhar…brincadeira! Mas essa questão é séria e precisamos, com respeito, pensar em todo o seu contexto.

A resposta para mim é: nenhum dos dois!

Vamos começar pensando nessa “gravidez” de quem está aguardando a adoção se concretizar. Uma ressalva aqui, porque acho muito mágico esse momento de quando, nesse processo, duas pessoas envolvidas, sejam elas casal heterossexual ou homossexual, indiferente, ambos estão “grávidos”, à espera de seu filho(a). Não existe exclusividade da mãe aqui – o que eu, sinceramente, acho um tanto egoísta, até porque, após o nascimento, conheço muitos homens que participam tanto quanto a mãe. Por outro lado, precisamos pensar na criança. Temos que respeitar uma vida que já existe, seja ela recém-nascida ou não, e que, na maioria das vezes, acabo vendo como sendo o maior erro do percurso, cometido pelos pais. As famílias ignoram que as crianças adotadas chegam com uma história e esperam que elas comecem do zero. Um primeiro alerta: não é assim que funciona.

Entendo que, no nosso contexto, aqui no Brasil, a maior parte das crianças são levadas à adoção basicamente por problemas relacionados à falta de estrutura provinda de fatores socioeconômicos, e, assim, não tem a possibilidade de ser criada por sua família biológica. E, do outro lado, estão os pais candidatos à adoção – grande parte motivada pela infertilidade. Tendo esses elementos como ponto de partida, as reflexões sobre o tema devem nos encaminhar para respostas que visem encontrar caminhos a partir dessa realidade – e não alternativas idealizadas, que não levam em conta as dificuldades pelas quais esses pais e filhos passaram em sua história de vida.

Um dos desafios a serem enfrentados é que já vem junto com a nossa cultura a ideia de que a mãe gera o bebê por 9 meses e depois dá a luz e, em sequência, os pais criam juntos o filho… No caso da adoção, esse modelo tem que ser rapidamente quebrado. Os pais adotivos precisam estar abertos para reproduzirem outros modelos, para o acolhimento e reconhecimento do filho.

A magia desse processo é que nem um dos lados sabe como será!

É preciso que os pais adotivos e o adotado se abram e se permitam para o novo. Não é tapar o sol com a peneira, mas sim dar e receber um novo amor.

Pais adotivos não são e nunca serão iguais aos pais biológicos. Não são melhores, nem piores. São diferentes. Para que a adoção transcorra bem, o imprescindível é lidar com a diferença, é respeitar a origem do adotado, é, sempre que surgir o assunto, discutir com respeito e gratidão.

O mais gostoso de toda essa jornada é o vínculo que se cria e o amor incondicional que se constrói…

…mas esse é o grande desafio. Como se constrói esse vínculo e cria esse amor?

Quando tudo parece acabar, ou seja, os longos anos esperando pela adoção, e uma nova era de pura tranquilidade e harmonia irá começar, é dada a largada para o momento da virada na vida de todos, o momento de fortes emoções. A chegada do seu filho adotivo trará muitas mudanças para você e para todos que estão ao seu redor. Familiares, amigos, vizinhos, amigos de trabalho e, nesse momento, cada detalhe, cada foto, cada frase, fará toda diferença para sempre.

O vínculo entre pais e filho não acontecerá rapidamente ou de uma hora pra outra, e será necessário um tempo para os dois se adaptarem um ao outro, assim como criar e encontrar afinidades e o carinho, e o amor e a admiração nascer no coração de todos.
Nós temos por costume nos cobrar muito para que as coisas aconteçam rapidamente e, quando esse vínculo demora um pouco para acontecer, um sentimento de culpa começa a enlouquecer os pais. Relaxem, esse processo é normal. Mães biológicas, algumas vezes após o nascimento de seu bebê, também levam certo tempo para amar seu filho. Imagina, então, para uma mãe depois de uma adoção? Ao invés de se cobrarem, deixem tudo fluir naturalmente, pois, dessa forma, poderão aproveitar cada momento e construir esse vínculo rapidamente.

Lembre-se: se para você está sendo difícil, para a criança está sendo ainda mais, principalmente para crianças mais velhas. O medo, a insegurança, os traumas do passado – principalmente no começo – estarão muito presentes e será sua responsabilidade dar segurança e mostrar que ali, com você, tudo será diferente. Converse muito com ele, mostre que ele pode contar com você no que precisar e use sempre seu instinto materno. Mostre a ele que seu colo de mãe é e sempre será um local seguro e que pode ser procurado sempre que quiser. 

Momentos bons e dificuldades vão surgir, assim como seria com um filho biológico. Encare de forma natural, dedique-se e se entregue de todo o coração. A maternidade é uma aventura, seja ela da “forma natural” ou através da adoção, então não atribua as dificuldades ao fato do seu filho ser adotivo. Criança é criança, não vem com manual de instruções, mas é só olhar em seus olhinhos que será fácil de enxergar a sua alma. Tudo que eles precisam é de muito amor, carinho e dedicação. O resto acontece naturalmente.


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